alta temporada
são cinquenta e qualquer coisa. tantos sóis quadrados - ainda que densos e pulsantes - e uns poucos domingos redondos, circuláveis e por vezes desnorteantes.
o número não importa mais, é fato que esse tempo passou e com sua sequência as consequências. a inevitável é a - cada vez mais desperta e auto consciente - demanda represada que, liberta, passa a demandar repressão e limites. é tempo de se redescobrir e se ver ser onde não se foi, tatear e engatinhar com tesão e medo. é momento de fome de vida sem gula de morte. de se propor e se aquietar. se soltar e, como um observador terceiro, se ver solto para então se manter em uma imaginária segurança. é nesse instante que se deve saber-se.
a sabedoria, a qual um certo tanto vem do tempo do ser, se cristaliza de fato, agora mais que nunca, no tampo do ter. saber-se é limitar-se. definir-se é delimitar-se.
a intensidade, marca central, não calha silenciar. asfixiada seria mais bomba que motor. intensidade radial, no entanto, que apesar de energética busca preguiçosamente na falta de direção seu sentido, já desgasta mais que deleita.
assim como a obra de arte depende de uma fronteira - por mais móvel e porosa que possa ser - com a vida para estabelecer-se como tal, essa também precisa de risco que lhe dê contornos. melhor para o vivente arriscar e rabiscar, mesmo que com necessários apontamentos, e evitar que seu limite lhe seja imposto por um rasgo.
a marcação entre vida e não-vida vai existir, que seja sábia, intensa, artística. viva.
pedrodefaria