seremos
“nunca vão entender esse amor”, canta a leal torcida de norte a sul, norte a sul, desse país.
diz-se — e sente-se — que estamos, no entanto, em um lugar removido do tempo em um momento retirado do espaço. em que norte e sul são abstrações estrangeiras. um “onde” em que o “quando” se torna “quanto”: quantos dias se passaram aqui dentro. quantidade que faz sua contagem como se estivéssemos no tal mundo “lá fora”; afinal, parafraseando um texto mais sábio que este, cada dia calendarístico é como mil para o mundo habitado pelos internos da mente e da alma. cada tropeço mil abismos, cada minuto de atraso de uma visita, mil abandonos.
esse é apenas um dos detalhes incompreensíveis para os “bom dia, boa tarde, boa noite”s da parede para lá. o que senti ontem e que não se apreende por completo, palpável mas misterioso mesmo entre nós, é esse formato de amor, tão distinto e estranho quanto puro e incontornável. esse sentimento (sensação, talvez?) que, sem alternativa, construímos do fumódromo à sinuca, passando pelo refeitório sem deixar de fazer um desvio pelo jardim.
não é uma competição. por certo que aqui concentramos mais não entendedores (ou percebedores) do esperado, e por isso sofremos e por isso choramos. mas, ao fazermos isso juntos, esse amor, que também faz sofrer e faz chorar, nunca vão entender.
ontem foi o jogo do vasco - tão intenso para mim - celebrado pelas mais variadas afiliações futebolísticas e culturais, amanhã a miçanga de presente com uma palavra que só quem recebe sabe o sentido e depois o cigarro doado para quem acabou de chegar. carregando nossa existência colina acima, somos.
mas é necessária a peleja, a batalha, o enfrentamento. e assim fazemos. lutamos todo dia, a cada gigantesco micro instante, para entender, sem dúvida, sem ressalva, sem asteriscos, com medo mesmo e certeza sempre: seremos.
pedrodefaria